Essa foto me faz viajar pelo fato de ela congelar uma fração de segundo (pega 1 segundo e divide por 250, foi nesse tempo). Eu fico passeando o olho por essa imagem, me imaginando dentro dessa cena em câmera lenta.
Foi assim que eu me senti em muitos momentos durante a cobertura do crime da Vale, em Brumadinho. Toda vez que me deparava com o limite da lama, ou seja, a marca até onde a lama atingiu, me transportava para aquele lugar em um exercício de imaginação.
Como era esse pasto antes da lama? Como era essa ponte? Como era essa pousada? Como era esse lugar? Como eram essas vidas?
O momento mais impressionante da cobertura toda foi me deparar com uma casa abandonada. O pote cheio de acerola, a vagem cozida na panela, os passarinhos na gaiola, a cama desfeita, a gaveta dos remédios aberta. A vida tão viva, quase palpável.
Eles estavam ali, poucas horas antes. Soube, uns dias depois, que trabalhavam para a pousada, a mulher e o filho morreram lá, e o marido que estava em casa sobreviveu. A vida interrompida. E eu estava de frente para o último segundo, eu sentia a presença deles. Esse sentimento foi o mais impactante dos 14 dias que fiquei lá.
Brumadinho me ensinou muita coisa, principalmente sobre o quão paradoxal é a vida. A Vale é boa e é ruim. A cobertura foi muito difícil mas profissionalmente foi muito bom. O contexto é terrível, mas mesmo assim boas imagens precisam ser feitas. Brumadinho me mostrou o outro lado.
Compreendi porque o ser humano gosta de ver tragédia. Porque faz a gente se sentir vivo. O paralelo é inevitável. Portanto, você agradece, valoriza mais. A tristeza tem um efeito muito doido na gente.
Compreendi a dependência que nosso povo tem da mineração ao ouvir de um sobrevivente, durante um relato espetacular em que narrou toda uma sequência de desgraças e escapou por pouco do refeitório, que tinha o sonho de voltar a trabalhar para a Vale.
Vi de perto a tristeza que é ter um Estado totalmente depende do capital. É um relacionamento extremamente abusivo entre Vale e trabalhadores — com o aval do Estado, que protege sempre o capital antes do povo. Muito triste entender melhor o sistema perverso que estamos inseridos.
Muito lindo todo o tratamento dos mineiros comigo e com colegas da imprensa que pude observar. Me ofereceram de casa para ficar a suco de acerola, passando por carona de caminhão de lixo. Todos querem prosear e oferecer comidas deliciosas, esbanjam uma hospitalidade única.
Fiz muitos amigos novos, mineiros queridos que definitivamente não mereciam passar pelo o que estão passando. Pessoas que tenho a vontade de visitar mais vezes, em um contexto melhor. Mas que mesmo no pior contexto possível, foram só amor.