A história começa no dia 4 de dezembro de 2017, com um email que enviei ao chefe da Reuters no Brasil pedindo para cobrir o réveillon no Rio. Talvez para espanto dele e para indignação dos amigos que eu estava combinando uma viagem de final de ano, eu queria cobrir o réveillon. Pedi para trabalhar na data que todo mundo comemora. Tava inspirado e vidrado no fotojornalismo, que tinha se tornado o meu foco profissional há apenas três meses na época.
Uma amiga até questionou, “mas pauta de réveillon?”, e respondi brincando “eu vou ganhar o Pulitzer nesse trabalho”. Ela me lembrou dessa história logo depois da foto ter viralizado, porque o caos que se seguiu me fez apagar da memória esse momento. (Ainda) Não foi o Pulitzer, mas foi muito louco.
O gás que essa força de vontade interior traz foi responsável pela foto do menino. Foi tudo na intuição. No dia 31 fui mais cedo à praia, ver o ponto em que ficaria, pensar nas imagens, checar o policiamento, rotas de entrada e fuga, etc. Voltei mais tarde com roupa para molhar e a câmera com uma lente numa pochete presa no peito.
Começaram os fogos e eu tinha 17 minutos de queima para fazer a pauta toda. É uma pauta bem rápida, de certa forma. Nesses minutos, busquei registrar as pessoas ao meu redor e como reagiam a virada do ano e aos fogos, que são, de fato, impressionantes da beira d’água. Entre esses cliques, vi o menino lá longe, paradinho, encantado com os fogos.
Fui, literalmente, correndo até ele com a câmera pra cima e a água no joelho. Para não atrapalhar o seu momento, fiquei atrás e fiz os primeiros cliques, ele de costas. Esperei o menino virar por três eternos minutos, mas o fascínio com o céu era enorme, maior do que o frio que sentíamos por causa da água. Meu tempo corria e eu senti que precisava olhar para ele. Me posicionei de frente pro garoto, de costas para os fogos, e fiz uma sequência de 20 imagens. A primeira foto foi a imagem viralizada. As últimas são ele rindo descontraído pra câmera.
O primeiro clique captou algo real, algo único, genuíno e espontâneo. Foi a fração de segundo que ele ainda não tinha dado conta da minha presença. Foi exatamente essa espontaneidade e esse encantamento que me comoveram para clicar (e postar) esse retrato. Depois, ele se tornou um símbolo, mas ali, naquele momento, foi a pureza de uma criança que me emocionou e sensibilizou. Eu nem tinha visto o que estava atrás do menino, só consegui olhar pra ele.
A reação dele comigo foi tão legal que achei que deveria perguntar a idade e o nome (foi a única pessoa fotografada nesse dia que conversei). O nome não ouvi, mas lembro que falou oito anos. Me despedi e continuei fotografando os minutos restantes do espetáculo. Voltei pra casa correndo, enviei o material à agência e resolvi postar uma foto no meu Instagram.
Às 3 am, com povo doidão nas festas, pensei: “vou deixar as fotos mais fortes, dos fogos, para o dia 1 de tarde. Por agora vou postar alguma foto que não tenha fogos, só pra marcar presença no Insta”. Postei duas fotos do menino — a foto viralizada em segundo no slideshow porque, no momento, achei a primeira mais interessante — em PB pois estavam escuras em cor (usei ISO 500 pra evitar grão).
As pessoas viram a força que existe nessa foto antes de mim, o que foi lindo. A foto viralizou na tarde do dia 01/01/18. Comecei o dia com 7 mil seguidores e dormi com 40 mil (curiosamente, esse número diminuiu muito principalmente depois do meu posicionamento na campanha contra o Bolsonaro #filtrodademocracia). Do Fantástico ao Washignton Post, a vida virou de ponta cabeça. Uso o Instagram há oito anos e nunca poderia imaginar que isso aconteceria. As pessoas estavam surtando com uma foto que postei.
A jornada toda foi incrível e o aprendizado foi surreal. Acho que amadureci 10 anos em um mês. Foi muito simbólico ter acontecido logo no início da minha virada profissional, quando decidi deixar a moda de vez e focar no fotojornalismo. Senti como um aviso: “ó, seja bem-vindo mas faça tudo com muita responsabilidade”. Todos os meu cabelos brancos de hoje brotaram em janeiro. Foi intenso demais. Fiquei pasmo como uma postagem “qualquer” no Insta poderia fazer tanto barulho. A internet é doida e maravilhosa!
Ela, a internet, me fez entender o poder que nós, fotógrafos e contadores de história, temos. E compreendi a necessidade de agir com 100% de responsabilidade em tudo, sempre. Na época fiquei fragilizado com as pancadas que me deram, mas sempre estive certo e seguro do meu posicionamento. Consciência tranquila por estar seguindo o meu coração e fazendo tudo com muita sensibilidade e respeito.
Conheci o Leleo, o menino da foto, sua mãe e seus irmãos. Foi muito emocionante. A mãe estava lá atrás no dia 31, ele não estava abandonado. Desde a primeira vez que nos falamos ela não quer se expor. É uma decisão dela, não minha. Eu respeito e por isso não vendo a fotografia para nenhuma parede. Não vendi e não lucrei milhões com essa imagem. Também não quis a publicidade gratuita. Meu trabalho é maior do que essa fotografia e eu não teria nada a acrescentar na discussão, enquanto a mãe não quisesse aparecer.
Meu trabalho fala por mim. Nem todo mundo vai entender e tudo bem, eu vou seguir fazendo o trabalho que acredito e sendo algo que tenho certeza que nasci para ser, que nunca passou por uma escolha. Não tenho diploma, mas o jornalismo tá no sangue, no olhar e no instinto. Tenho muito orgulho por ter feito essa foto.
Entendo que ela se tornou algo muito maior do que eu, é um símbolo do nosso país — principalmente nos dias de hoje, e olha que foi feita antes da onda Bolsonaro surgir pra valer. Cada um que vê além de um menino deslumbrado com os fogos vê uma interpretação. Todos fazem sua própria leitura a partir das suas referências. E essa fotografia, do meu ponto de vista, fez a máscara social de muita gente cair.
Quando não temos respostas (qual é a realidade do menino?), a gente se mostra no modo de olhar. No silêncio do outro, projetamos nós mesmos ao julgar. E aí o preconceito explodiu. Foi muito nítido esse processo. A foto não é polêmica, mas talvez o que você veja nessa imagem seja polêmico.
Então vamos aproveitar para discutir e refletir enquanto Brasil porque esse menino nos ensinou tanto sobre o olhar. Vamos discutir o racismo, a desigualdade social e qualquer outro ponto delicado da nossa sociedade. Acho muito curioso observar como até hoje essa foto provoca e atiça as pessoas, sensibiliza muita gente. Ainda não sei responder porque essa e não outras centenas de fotos de crianças que fiz durante 13 anos de fotografia, mas fico muito feliz por ver a fotografia cumprindo o seu espetacular papel enquanto arte.