







Prêmio Espírito Público 2019
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Neri, o freteiro-fazendeiro-pajé
Preciso falar sobre o Neri (a pronuncia é Nerí). Ele é freteiro de Canarana (MT), mas não estava na lista dos três nomes que me passaram quando cheguei na cidade em busca de um motorista para me acompanhar na cobertura das queimadas.
Mas o primeiro que liguei da lista não podia e me indicou o Neri. Que sorte! Com uma Ford F250 de 1999 com led verde na grade dianteira, sem ar-condicionado, chega esse descendente de alemão, quase da minha altura, com a maior cara de fazendeiro.
“Ferrou”, pensei num primeiro momento. Mas depois entendi que Neri é uma mistura de fazendeiro com pajé. Veio do sul (como grande parte dos brancos dessa região do Mato Grosso) e se instalou há 41 anos em Canarana, cidade com 25 mil habitantes atualmente. Teve mercado, loja e hoje vive levando e trazendo coisas pros outros — principalmente para os indígenas, da cidade para a aldeia.
Seu trabalho fez com que esse “fazendeiro” se aproximasse dos povos indígenas. Neri tem abertura em praticamente todas as terras indígenas da região. Leva gasolina, comida, pessoas e o que mais precisarem. Às vezes nem cobra, ou deixa que o paguem dois meses à frente, o que ele compreende pela dificuldade financeira e por muitas vezes deixa a dívida pra lá.
Neri votou no Bolsonaro mas mal sabe que é mais de esquerda do que de direita. Ou talvez saiba, já que revelou ter votado quatro vezes no PT. É contra as privatizações, contra o avanço desenfreado do #agroépop em cima das reservas ambientais, compreende o poder e a importância da natureza e é a favor dos direitos dos indígenas. No retrovisor da F250, tem pendurado um artesanato indígena com os dizeres “Deus é fiel”.
Ele conhece praticamente todas as aldeias do Xingu (especialmente entre o Alto e o Médio Xingu) e os territórios xavante, na direção de Goiás. “O cacique da aldeia tal é o fulano”, “bom dia em xavante se fala assim”, “vamos naquela terra indígena, o pajé é meu amigo”. E conhece todas as estradas, não só as asfaltadas, mas, principalmente, as de terra batida que sempre encurtam o caminho, apesar da poeira absurda que nos obriga a fechar o vidro (no muque) a cada automóvel que cruzamos.
E Neri tem sangue de jornalista, que é o que eu mais admiro nos motoristas que trabalham para a impresa. Eu não dirijo e estava sozinho cobrindo pra Reuters, enquanto os outros fotógrafos estavam em dupla, foto e vídeo. Minha dupla foi o Neri e, assim como meus colegas da agência, demos um nome pro nosso duo: equipe pajelança (mas ele prefere “equipe águias do fogo”, acho que por respeito aos verdadeiros pajés). Ele entendeu minha dificuldade da cobertura sozinho e, com um apurado faro jornalístico, se esforçou para me ajudar. E ajudou muito.
Absolutamente em todo cantinho que a gente foi, ele conhecia alguém. Abríamos as portas da Ford e eu ouvia “Neri!”, seguido de um sorriso da pessoa. Foi assim com fazendeiros, com indígenas, com ribeirinhos, com trabalhadores rurais...
Sem Neri na direção teria me perdido algumas dezenas de vezes, teria perdido tempo em estradas asfaltadas que demoram duas vezes mais, não teria entrado em tanto território indígena com a facilidade e a hospitalidade com que entramos e não teria aprendido tanto sobre o Xingu, seus povos, sobre o Mato Grosso e seu alucinado agronegócio e sobre como é viver na meiuca do Brasil.
Ao Neri, um salve pelos encontros, pelas diferenças, pelos aprendizados, pelas longas conversas aos berros para que a gente se ouvisse apesar do barulho do motor da sua amada F250, pelo carinho pelo qual ele me tratou e pelo profissionalismo, que me proporcionou encontrar minhas histórias, fazer minhas fotos e vídeos e cumprir minha missão para a Reuters. Viva, Neri! Até a próxima, pajé.
Suzy, a cozinheira do amor
Suzy é amor. É deboche, é informalidade, é intimidade. Foi meu primeiro contato na aldeia Kubenkokre, Terra Indígena Menkragnoti, do povo kayapó, no sul do Pará, onde estávamos trabalhando no Xingu+. Eu na cobertura, ela na cozinha. Ela contratada pelo Instituto Kabu, eu pelo ISA.
O bonde da comunicação chegou à noite, faminto depois de dois dias de viagem, e ela, que já estava lá há alguns dias, soltou de primeira: “se não comer agora vai ficar sem jantar, tô fechando. Já avisa pro povo que veio com você”. Falando num volume três pontos acima. Recado dado.
Suzy dá um recado atrás do outro. Ela é branca, do Paraná, mas mora em Novo Progresso (PA) e trabalha como “freelancer” para o Instituto Kabu, associação dos kayapó. Já tem a manha de como lidar com os indígenas. Na cozinha do evento, ela tinha duas ajudantes kayapó que praticamente não falavam português e ela conversava de igual pra igual com elas, sem cerimônia — que muitas vezes nós brancos temos ao conviver com indígenas.
Colocou ordem nos indígenas pra organizar a fila quando o refeitório estava lotado, e com a maior moral. Engraçadíssima, fala alto, grita, ri, brinca, dá esporro, gargalha, conta altas histórias e tá sempre feliz. Alguns devem achá-la meio exagerada, e ela é mesmo. E eu amo isso nela. Com Suzy é tudo intenso, principalmente o carinho.
Vegetariano que sou, passo alguns perrengues quando estou em aldeia. Vou preparado, mas jamais imaginei que Suzy fosse expert em comida vegetariana. Sim! Na meiuca do Brasil, em plena selva amazônica, eu tinha encontrado uma cozinheira que é mãe de uma vegetariana e entendia a minha dificuldade.
”Entra aí, seu prato tá ali, ó. Separei também uma saladinha naquele pote e cozinhei quatro ovos”. Eu estava no céu com tamanho carinho. E nem precisei pedir; já no primeiro dia, no almoço e no jantar, passei reto pela fila para se servir e entrei direto na cozinha da Suzy. Ela transformou cuidado em comida, me senti abençoado e muito sortudo.
No Xingu+, em agosto, nós dois trabalhamos muito. Nos adoramos, trocamos instagram, mas tivemos pouco tempo pra conversar mais a fundo. Eis que, em setembro, volto ao território kayapó (dessa vez na aldeia Pykany, à chamado do Kabu, para documentar uma festa tradicional) e reencontro a tia Suzy.
Fiquei tão feliz quando soube que ela iria. Não só pela tranquilidade de saber que comeria muito bem, mas pela oportunidade de conviver mais com a Suzy. Ficamos mais amigos do que nunca. Passamos muito tempo juntos: tomamos banho de rio, à noite tentávamos usar o raro wifi juntos, conversamos muitas horas na cozinha, acompanhamos o dia a dia na aldeia juntos.
A tia Suzy virou mãe, virou irmã, virou amiga. Mulher de caminhoneiro que trabalha para os madeireiros e amiga de muitos garimpeiros, implico com ela o tempo todo. “Ah, para com isso, deixa as pessoas trabalharem em paz”, ela responde. A realidade de Novo Progresso é outra e quem sou eu para julgar alguém nesse Brasil sem lei? Mas não perco a chance de mandar uma indireta, comparando os madeireiros e os garimpeiros com os bandidos do Rio e ela levanta da mesa, muda de assunto.
Suzy é 100% cabeça aberta e sem nenhum filtro. Fala cu, buceta, viado, cocaína, maconha sem o menor pudor com quem for. Mãe de uma filha homossexual, que mora com a esposa no sul, ela tem empatia de sobra. Chama os indígenas de niro e nira e eles atendem, sorrindo. “Chama us níro pra trocá peixe por frango, amigo!” Eu passava mal de rir. Em kayapó, mulher é menire e se fala de jeito que fica quase “meníra”. Foi o suficiente pra ela fazer os neologismos.
Digo que Suzy não fala nem português nem kayapó, ela fala Suzês — e é uma língua muito mais difícil do que as outras duas. Inventa verbos o tempo todo, é muito engraçado. Conviver com ela é rir o tempo todo. Que delícia é poder chamar Suzy de amiga e saber que agora tenho um colo sempre que precisar lá no sul do Pará.
Atualmente nos falamos por whatsapp e queremos marcar de ela visitar o Rio. Tenho certeza que vai se identificar com o nosso jeito informal e despachado. Suzy, pra mim, é o que há de melhor no Brasil. Gente de verdade, com coração enorme transbordando carinho pra todo mundo. Mesmo com as contradições e caminhos da vida, não tem tempo ruim com ela. Mesmo quando tá difícil, a solução é dar risada — e cozinhar algo delicioso. Sou muito grato ao universo por mais esse encontro. Obrigado por tudo, Suzyellen, meu orgulho por ti é forevis <3
Texto escrito em 11/10/2019






Portraits for CLAUDIA
Two portraits of women that are running for the Prêmio Claudia, in the July issue of the magazine:
Tuany Nascimento - https://claudia.abril.com.br/indicacoes/tuany-nascimento-2/
Sandra Santos - https://claudia.abril.com.br/indicacoes/sandra-santos-2/
Glenda Kozlowski for UOL










Festival de Parintins
Como dizem as letras das toadas (músicas da festa do boi-bumbá), é um boi de veludo com uma estrutura metálica por baixo, manipulada por um homem do qual não se vê o rosto, e que interpreta a maior estrela da noite, durante uma apresentação de 2h30 de cada agremiação no festival de Parintins, no Amazonas (a 370km de Manaus). Esses homens — famosos pela função — são chamados de tripa, pois, segundo me contou um morador, ficam onde estariam as tripas do boi.
Folclore não trabalha com o racional e taí a poesia do festival. O sentimento dos moradores de Parintins pelos bois de pano preto e branco com uma barra de cetim embaixo é inspirador e contagiante. Revigora embarcar nas toadas por 5 horas no bumbódromo lotado com 40 mil pessoas durante três noites seguidas.
Se no início da primeira noite cheguei com um olhar um tanto desconfiado para aquele boi de mentira descendo de um carro alegórico de 10 metros de altura pendurado em um balanço que cuspia fogo pelos lados enquanto as arquibancadas deliravam, no final já estava correndo pelo bumbódromo para tentar tocar no boi, que passou por mim. “Vai que dá sorte”, pensei na hora. “Tanta gente apaixonada por ele, alguma coisa ele tem.
As pessoas amam mesmo o Garantido e o Caprichoso, os dois bois de pano. Esse amor envolve cultura, história, reconhecimento, pertencimento, protagonismo. E aí você começa a acreditar também, se envolve no sentimento bom que as pessoas nutrem pela festa e pela cultura popular. Dá orgulho de ser brasileiro e de bater no peito: também quero me apaixonar pelos bois de pano. Faz parte de quem somos, é resistência.
Voltei Garanchoso. Para mim, Garantido bateu na emoção e o Caprichoso brilhou demais. Se complementam. O festival, que reverencia a cultura indígena brasileira, é conhecido como a orquestra da selva e celebra os povos amazônicos de um ponto de vista decolonial, apresentando as caravelas e o capitalismo como vilões e não heróis (diferente de algumas escolas de samba do Rio que ainda não atualizaram a perspectiva). É aula de história contada através da cultura. Tudo que o Brasil mais precisa nesse momento.





On assignment for UOL/Universa






Neymar for Reuters
Read the article: https://br.reuters.com/article/topNews/idBRKCN1T803N-OBRTP




#30M
30M 2º Grande Ato pela educação, Centro do Rio de Janeiro. 30 Maio 2019.
Bolsonaros for Reuters
25 Maio 2019: Casamento Eduardo Bolsonaro, Santa Tereza, Rio de Janeiro.








26 Maio 2019: Ato pró-Bolsonaro, Copacabana, Rio de Janeiro.












Instituto Natura campaign
Instituto Natura - Relatório 2018: http://www.institutonatura.org.br/inrelatorio2018/pt/
#15M
#15M 1o Grande Ato Pela Educação, na Avenida Paulista, São Paulo.








Jerominho e Natalino para El País Brasil



ATL 2019
Veja a galeria completa AQUI.
O Acampamento Terra Livre (ATL) é o maior encontro indígena do país e acontece durante abril, em Brasília, há 15 anos. São promovidos debates, rodas de rituais e manifestações em prol da causa indígena. Em 2019, o grito principal foi contra o governo Bolsonaro, inimigo das causas indígenas e da preservação ambiental. Cerca de 4 mil indígenas de 26 estados estiveram presente.
The Free Land Camp (ATL, as Acampamento Terra Livre) is the largest indigenous mobilization in the country and happens during April, in Brasília, for 15 years. Discussions are promoted as well as ritual wheels and demonstrations for the indigenous cause. In 2019, the main protest was against the Bolsonaro government, an enemy of indigenous causes and environmental preservation. About 4,000 indigenous from 26 states were present.
ATL 2019 for El País
Articles:
Indígenas em Brasília: “Desta vez, não trouxemos nem as crianças e nem idosos” - https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/25/politica/1556150993_134887.html
As caras do acampamento indígena em Brasília - https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/25/album/1556146174_880905.html
“Dizer que nós mulheres indígenas não enfrentamos violência de gênero é mentira” - https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/26/politica/1556294406_680039.html














Flood in Rio for Reuters


GQ Brazil April 2019
Portraits for CLAUDIA
Dois retratos para a revista CLAUDIA no mês de Março (Ícaro Silva e Silvana Batini) e um retrato de Rosiska Darcy de Oliveira publicado no mês de Abril.
Entrevista com Ícaro Silva - https://claudia.abril.com.br/famosos/icaro-silva-fala-de-racismo-e-sua-vontade-de-transformar-a-sociedade/
Matéria com Silvana Batini - https://claudia.abril.com.br/sua-vida/conheca-a-historia-inspiradora-de-mulheres-que-lutam-contra-a-corrupcao/
Entrevista com Rosiska Darcy de Oliveira - https://claudia.abril.com.br/sua-vida/rosiska-darcy-de-oliveira-recorda-trajetoria-em-documentario/

